O Misantropo (Molière)

Teatro São Luiz  Encenação: Nuno Cardoso, Ao Cabo Teatro  Uma outra vez aconteceu que espontaneamente, por falta de planos melhores vim a parar ao teatro. E também, uma vez mais, afirmo a minha ignorância cultural, eu nunca lera Molière e não conheço os personagens, nem sei como que seria uma boa interpretação da obra.  Posto em cena de forma moderna, a peça evoca a comédia do século XVII num ambiente “disco” dos 1970/80. Quanto a mim, eu gostei desta transladação no tempo, enquanto que os meus amigos acharam bastante pobre e ridículo, e a sala estava meio vazia. Em vez de separados por uma cortina ou outra coisa, as cenas sucedem-se intercaladas com momentos de dança com música popular contemporânea. Ao estilo de Saturday Night Fever com musicas de Abba e de Marvin Gaye.  A vestimenta das personagens pode ser dos anos 70, 80 ou até do 2016, contudo as letras seguem a tradução de Alexandra Moreira da Silva, que, como diz no folheto, têm pleno respeito formal pelo texto original. No palco, feito com caixas Ikea com luzes de disco a cintilar de dentro, havia: uma mesa e cadeiras de plástico, um aparato de música “retro” enorme, um colchão grande e sem lençóis, um pacote de batatas fritas “Lays”, uma garrafa de champagne e bonecos de peluche de Winnie Pooh e do burro. 

A partir da minha perspectiva de inculta, de pessoa que nunca leu a Molière, ainda percebi que O Misantropo é uma crítica à sociedade e das suas regras nos costumes do tempo, as regras que determinam de “como viver” com virtude e mérito, de como conduzir diferentes relações, de amizade, de amor e de ciúmes e enganos. Não tenho certeza de se é uma obra que pergunta que é que se passa quando uma pessoa se recusa a jogar o jogo. O protagonista Alceste é um homem chateado com o mundo, de mal humor, mas sendo que não pode viver isolado, faz o possível para ficar melhor, que é chocante para o mundo, grita com as pessoas a sua volta é tenta de alguma maneira reencontrar o amor. A sinceridade e as convenções não se dão bem nunca, mas na Corte do Rei ainda menos.  Se esta encenação moderna da sátira sobre a moral do “homem de bem” faz sentido o tenha alguma estética apreciável, é questão de gosto, porém, é óbvio que os temas de base, as normas sociais, o apaixono e promiscuidade feminina nunca perdem de actualidade. Não sei se no original de Molière há bailes, mas aqui a pista de dança é onde nos nossos tempos se experimenta o prazer, êxtase, descontrolo, é ao mesmo tempo campo de engate, e lugar onde escapar do mundo.  Na entrevista com Pedro Sobrado, o encenador Nuno Cardoso diz: 

De amor aqui não há nada. […]. O que fundamentalmente existe é desejo e posse, o que não se confunde com amor. Se o Alceste conseguisse Celimena, o seu argumento ganhava. O que ele deseja é que a sua razão vença. […] Obviamente, o jogo é aqui sublinhado, escatologizado, etc., mas isso está lá: a carne, o desejo, e a posse. Para o Alceste, possuir Celimena é conseguir alguma coisa; para os marqueses, possuir Celimena é possuir a última coisa que saiu na revista da moda; para Celimena, possuí los a todos é a maneira de não ser possuída por ninguém, o que é uma forma de liberdade. 

Fiquei com a impressão de que as personagens falavam mau, quer dizer que falavam muito rápido e com eco nos microfones, tanto que nos primeiros 10 minutos não captei nada. Do resto percebi, com sorte, uns 40% do que se dizia que é pena porque nem os amigos portugueses percebiam muito mais (mas tinham a vantagem de conhecer o original). Mas, ainda assim, pessoalmente tenho um prazer infantil de ouvir versos em rima, do estilo, não é p’ra gabar, mas ninguém me pode igualar, etc.. E estava sempre a espera que utilizarem os bonecos de Winnie Puh, mas não foi o caso.

P1040493

moliere sao luiz

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s